Sem sentido

Olhava fixamente para o celular. Um olhar fixamente vago. Era atento ao teclado e também a lugar nenhum. O que ela pensava? Nem mesmo a página do Google aberta sobre suas mãos seria capaz de responder.

 

A água insistia em pingar em cima dela. Lá fora o sol brilhava, mas dentro do ônibus a água escorria em seus ombros a cada curva. Chovia do lado dentro e desta vez não era nada romântico.

 

Voltou ao celular e começou a digitar. As curvas acentuadas faziam as letras fugirem de seus dedos. Talvez a velocidade fosse um pouco acima daquela marcada na placa que passou por seus olhos.

 

A água agora correu torrencialmente. Seu corpo encharcado foi de um lado para o outro em movimentos aleatórios. Já não eram apenas as curvas, agora eram cambalhotas. Dois, quatro, perdeu a conta antes de parar. Perdeu o sentido antes de encontrar algum sentido para tudo aquilo.

 

O celular foi arremessado para fora do vidro quebrado e ali ficou sem nenhum trauma. A página do Google aberta com a pesquisa que nunca será concluída. O que era mesmo que a mente inquieta iria procurar? Não se sabe, a mente aquietou-se.

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Um dia qualquer

Ela desceu do ônibus e em sua caminhada solitária cantarolava na beira do asfalto. Entre “Gipsy” e alguns sussurros, um pulinho de surpresa. Ela nem havia notado que o tempo estava para chuva, mas relâmpagos cortantes de céu a fizeram perceber que a chuva poderia lhe fazer companhia.

Continuou sua caminhada asfáltica sem se importar, mas alguns se importaram. E assim todos os carros e motos que passaram resolveram mostrar a ela que eles tinham buzina. Sim, buzina, uma invenção que ela já conhecia há tempos, portanto não entendia porque insistiam em mostrá-la.  Aliás, nunca entendeu porque pessoas lhe buzinavam, ela já conhecia o som barulhento e não tinha motivo de beleza surpreendente para chamar a atenção.

Enfim, sua caminhada ainda era longa. Nessa noite ela não se importava com seu rígido e cruel horário. Seguiu pelo caminho provido de monstros imaginários e fantasmas não tão imaginários assim.

Não estava sozinha. Era seguida de perto por latidos e ruídos. Era só um fim de dia e uma noite fria que se apresentava.

A chuva começou a dar sinais de sua presença. Mas ela já havia conversado com aquelas nuvens e estava combinado que a chuva só começaria quando sua caminhada diária terminasse.

E assim foi. O morro se fez escada, a escada abriu portas e a chuva trilhou os telhados.

Era só mais uma noite de um dia qualquer.

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Vão-se os ônibus, ficam os carros

Nunca tive a intenção de fazer deste blog um canal de protestos ou críticas a algum governo. Mas agora sinto necessidade de compartilhar uma revolta que não é apenas minha, sei que muita gente tem a mesma opinião.

 

Vou explicar melhor essa história. Eu moro em Indaial, uma pequena cidade do Vale do Itajaí. Assim como outras cidades, fica ao lado de Blumenau, que é uma cidade bem maior, com muitos empregos e cheia de gente dessas cidades vizinhas que vem até ela para trabalhar e estudar.

Sempre funcionou tudo muito bem. Cada cidade tinha sua empresa de ônibus e todos levavam as pessoas até o Centro de Blumenau, passando por vários bairros.

Com o passar do tempo, o trânsito de Blumenau foi se tornando caótico. Muitos carros, muita gente e sempre o mesmo espaço a ser percorrido.

Até que um dia, alguém teve a brilhante ideia que resolveria o problema do trânsito na cidade. Concluíram que a culpa de todo caos era dos ônibus que vinham de outras cidades, trazendo seus trabalhadores e estudantes. Pronto, era só proibir que esses ônibus venham até o Centro e o trânsito ficará muito mais tranquilo.

Claro que ninguém se importou com essas centenas de pessoas que dependem desses ônibus para vir até Blumenau. Algumas porque preferem deixar o carro em casa, outras porque não têm outra escolha. 

Afinal, não há problema algum em fazer estas pessoas saírem ainda mais cedo de suas casas e fazê-las chegar ainda mais tarde. Isso porque agora terão que depender de mais um ônibus para ir até o Centro. No meu caso, por exemplo, meu ônibus passa no Centro às 18h15 e  eu chego no meu destino por volta das 19h. Se tiver que ir até o terminal mais próximo, não chegarei lá antes das 18h30, porque a distância é curta, mas o trânsito é intenso. Então terei que pegar outro ônibus e com certeza chegarei bem depois das 19h de costume. E ainda dizem que as pessoas não vão demorar mais para chegar em suas casas.

Como há “muito espaço” nos ônibus de Blumenau, não vai fazer a menor diferença acrescentar mais algumas centenas de pessoas para usufruírem desse meio de transporte.

Não passou pela cabeça desses gênios que as pessoas vão preferir tirar seus carros da garagem? Que depender do “maravilhoso” transporte coletivo de Blumenau nem será cogitado por quem tiver condição de vir trabalhar de carro?

Isso tudo ainda não aconteceu, está previsto para  abril. Só então veremos como esta solução é “genial”.

Mas desde já quero enaltecer essa bela forma de agradecer a população das outras cidades, que tanto ajudam no crescimento de Blumenau.

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