Depois do atropelamento, o cachorro
Agora toda rua já sabe o que ela pensa sobre seus moradores e de seus respectivos cachorros. É fato comprovado: quanto menor a casa, maior a quantidade de cachorros largados para sobreviverem pelas ruas. E as pessoas se acham donos dos animais.
Mas a história começa antes, quando ela desceu do ônibus.
Já estava um pouco irritada por estar no ônibus. Havia perdido o costume de voltar para casa com esse meio de transporte.
Chegando no ponto, percebeu que seu noivo tinha ido buscá-la de moto. Irritou-se um pouco mais. Tinha guarda-chuva, bolsa, sacolas para carregar, além da necessidade de vestir jaqueta devido ao frio anormal de dezembro.
Mas estava a caminho de casa. Era hora de relaxar.
Não fosse o que tinha, ainda, para encontrar.
Na subida do morro, com a moto em ritmo lento, viu a matilha seguindo em sua direção. Conseguiu contar cinco cachorros.
Tudo bem, já estava acostumada. Mas dessa vez foi diferente.
Um dos cachorros conseguiu alcançar seu pé na moto. Seu escândalo pode ser ouvido por toda rua. No auge da raiva, quis acertar o guarda-chuva no cachorro. Na verdade queria mesmo era acertar os ditos donos do pobrezinho.
Em casa sua irritação subiu ao ponto máximo. A mãe tomou suas dores. E num momento jamais visto, resolveu tirar satisfações. Vestiu-se e colocou seu tênis. Foi até a pequena casa aglomerada de cachorros.
A filha ficou em casa, ao lado de suas duas cachorras que se compadeceram de suas lágrimas de raiva. Porque ela também tem cachorras, gosta dos bichinhos.
A mãe voltou orgulhosa. Contou que defendeu o pé, quer dizer, a honra de sua filha para quem pode. Provavelmente não vai falar em outra coisa nas viagens de Natal.
Sabe que não conseguiu resolver o problema dos cachorros na rua, mas defendeu sua filha. E fala para todos que fará isso quantas vezes for necessário.
A filha olhou para o sapato que salvou seu pé de um estrago maior. Lembrou-se do atropelamento. Decidiu não usar mais aquele conjunto de sapato com calça, teme qual pode ser o próximo acidente.