O crepúsculo de cada dia

Todo fim do dia é assim

O crepúsculo incomoda minha sede de vida

Adormeço  em silêncio dentro de mim

E meus sonhos ficam envoltos com a névoa da impossibilidade

 

De tantos desejos, quantos conseguirão ver a luz do dia?

Quantos ficarão presos nesse limbo entre o sol e a lua?

São apenas lampejos que perderam a força

Acabou a pilha para seguir no caminho da luz

 

Me encontro nas curvas e me perco em linhas retas

Os passos pesam porque não quero chegar

O destino traz tensão e todo peso que não posso carregar

 

A noite chega, sem lua, sem estrela, sem nuvens

Uma noite enevoada de perguntas, respostas e dúvidas

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A visagem de Prudentópolis

Essa história já virou causo de família, tanto que chegou em sua terceira geração. De tão contada e recontada, hoje posso falar sobre ela com propriedade de quem viu, presenciou e até rezou pra espantar a visagem.

 

Para que todos entendam, visagem é a forma como chamam fantasma, assombração, alma de outro mundo, lá na cidade de Prudentópolis e em outros recantos Brasil. E para que não precisem recorrer ao Google Maps, Prudentópolis é uma pequena cidade situada no Paraná. Cidadezinha onde nasci.

 

O causo que conto se passou lá pela década de 70, no sítio que ficava no interior do interior do Paraná. Sim, porque Prudentópolis já é interior, mas o sítio dos meus avôs era ainda mais no interior.

 

Nessa época visagem era coisa séria, ninguém se atrevia a brincar com elas. Sair de noite era coragem para poucos, afinal, ainda nem tinha chegado a eletricidade pra aquelas bandas.

 

Apesar do medo e de todas as histórias que se contavam daquelas almas penadas que andavam vagando pela terra, nunca ninguém tinha presenciado nada de tão concreto quanto o fato que irei contar.

 

Certa noite, logo depois do sol desaparecer e a casa ficar iluminada pelos lampiões, minha avó, meu avô, minha mãe (uma criancinha ainda) e meus tios se preparavam para dormir. Porém algo inesperado começava a acontecer.

 

Um barulho muito suspeito foi ouvido, vinha do sótão. E o barulho só aumentava. Minha avó teve a certeza que não queria ter: era visagem.

 

As crianças se esconderam, chorando desesperadamente.

 

Minha avó começou a rezar e conversar com aquela alma em desespero. Ela dizia para alma falasse o que a impedia de passar para o outro plano, o que aquela humilde família podia fazer por ela, era só a visagem falar que eles fariam. Mas a visagem não passava mensagem alguma, só continuava seu incessante barulho de terror.

 

A noite passou, ninguém dormiu. Minha avó rezou alguns terços compadecidas daquela pobre alma.

 

O dia amanheceu.

 

De repente, a visagem resolveu manifestar seu desejo. O barulho começou a se aproximar da saída do sótão. Minha avó protegeu as crianças e todos olharam apreensivamente.

 

A visagem se revelou. Era uma das galinhas do sítio que tinha ficado presa e só conseguiu sair orientada com a luz do dia.

 

Todos riram, era inevitável.

E apesar da surpresa, não deixamos de temer as visagens. Afinal, nunca se sabe quando pode aparecer uma.

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Depois do atropelamento, o cachorro

Agora toda rua já sabe o que ela pensa sobre seus moradores e de seus respectivos cachorros. É fato comprovado: quanto menor a casa, maior a quantidade de cachorros largados para sobreviverem pelas ruas. E as pessoas se acham donos dos animais.

Mas a história começa antes, quando ela desceu do ônibus.

Já estava um pouco irritada por estar no ônibus. Havia perdido o costume de voltar para casa com esse meio de transporte. 

Chegando no ponto, percebeu que seu noivo tinha ido buscá-la de moto. Irritou-se um pouco mais. Tinha guarda-chuva, bolsa, sacolas para carregar, além da necessidade de vestir jaqueta devido ao frio anormal de dezembro.

Mas estava a caminho de casa. Era hora de relaxar.

Não fosse o que tinha, ainda, para encontrar.

Na subida do morro, com a moto em ritmo lento, viu a matilha seguindo em sua direção. Conseguiu contar cinco cachorros.

Tudo bem, já estava acostumada. Mas dessa vez foi diferente.

Um dos cachorros conseguiu alcançar seu pé na moto. Seu escândalo pode ser ouvido por toda rua. No auge da raiva, quis acertar o guarda-chuva no cachorro. Na verdade queria  mesmo era acertar os ditos donos do pobrezinho.

Em casa sua irritação subiu ao ponto máximo. A mãe tomou suas dores. E num momento jamais visto, resolveu tirar satisfações. Vestiu-se e colocou seu tênis. Foi até a pequena casa aglomerada de cachorros.

A filha ficou em casa, ao lado de suas duas cachorras que se compadeceram de suas lágrimas de raiva. Porque ela também tem cachorras, gosta dos bichinhos.

A mãe voltou orgulhosa. Contou que defendeu o pé, quer dizer, a honra de sua filha para quem pode. Provavelmente não vai falar em outra coisa nas viagens de Natal.

Sabe que não conseguiu resolver o problema dos cachorros na rua, mas defendeu sua filha. E fala para todos que fará isso quantas vezes for necessário.

A filha olhou para o sapato que salvou seu pé de um estrago maior. Lembrou-se do atropelamento. Decidiu não usar mais aquele conjunto de sapato com calça, teme qual pode ser o próximo acidente. 

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O dia que o redator não mais escreveu #diadoredator

Em mais um dia normal, o redator foi ver os jobs que estavam em sua pauta do dia:

“Escrever frase para dia do corretor, mensagem sobre o dia do jornalismo, homenagem ao dia do desenhista, sacadinha para o dia da sogra e anúncio de oportunidade para o dia do desarmamento infantil.”

Essa pauta foi o cúmulo, o redator se revoltou. A partir daquele dia não escreveria mensagem para qualquer data comemorativa até que fosse criado o dia do redator.

Nesse momento, o desespero na agência foi geral. Afinal, o dia do detento estava próximo, o dia do estatístico também. E como ficariam as campanhas para os dias das mães, sem aqueles comerciais que fazem até brutamontes chorarem quando pensam em suas mãezinhas?

Nada conseguiu convencer o redator a mudar de ideia. Ele não abria mão de um dia próprio.

Assim passaram várias datas sem frase alguma: dia do químico, dia do citricultor, dia do operador de telemarketing, dia dos namorados, dia do mídia, dia dos pais.

Lá pelo final de agosto, a equipe de criação não sabia mais como fazer tantas homenagens sem o texto. O atendimento não conseguia mais explicar aos clientes porque só tinha imagem e um simples “Parabéns pelo seu dia”.

Até que, enfim, decidiram criar o Dia do Redator.

Isso não fez com que os jobs em cima de sua mesa diminuíssem, mas ele terminou o dia mais sorridente. O próximo job da pauta: criar um anúncio homenageando seu próprio dia. Afinal, se ele não escrevesse, quem faria?

Essa situação imaginária foi criada para representar porque nós, redatores, merecemos nosso dia. Sem o trabalho dos redatores nenhuma data comemorativa faria sentido. Porque sem nossos textos e conceitos nenhuma homenagem seria completa.

Nada mais justo que nós também tenhamos nosso dia.

Sugestão para data: entre tantos redatores geniais que o Brasil tem, gostaria de homenagear o Eugênio Mohallem, por isso acho que o dia do redator deveria ser no seu aniversário. Se alguém souber a data, não consegui descobrir.

 

Este texto é um apoio a criação do Dia do Redator, iniciativa do @psvsite e também pode ser lido no http://www.psvsite.com/cronicas/

 

Update: Saiu o resultado do Desafio lançado pelo PSV. Com muito orgulho anuncio que meu texto foi escolhido: http://psvsite.com/tops/?p=955

Fico muito contente sigo em frente pela criação do Dia do Redator.

 

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Vizinhos

Esse tema gera reclamação desde que os homens resolveram viver em sociedade.

 

Só para começar, o seu vizinho nunca terá o mesmo gosto musical que você. Se você curte um Rock, ele adora um sertanejo universitário. Se você é fã de MPB, ele não deixa de baixar uma música das novas estrelas do forró. Tudo bem, gosto musical não se discute. O problema é que quanto pior o gosto, mais alto é o volume do som.

 

Daí você só quer um dormir um pouquinho mais no sábado de manhã, mas seu vizinho resolveu cortar grama às 7 da matina. E claro, pra acompanhar ele coloca no último e estridente volume o mais novo sucesso da banda Calypso.

 

Então você lembra-se de como era bom morar em um lugar tranquilo. Você não tinha vizinhos, era apenas uma casa do outro lado da rua. Mal humorado pelo som do Calypso você olha pela janela e vê que essa mesma casa se transformou em um condomínio, de tantas outras que já estão empilhadas no mesmo terreno.

 

Nesse condomínio rola sempre uma festa no sábado ao som do “melhor” sertanejo universitário. E você ouve muita paixão, amor, dor, coração, até o amanhecer.

 

Então você cansa. Decide morar em apartamento. Afinal, som alto é proibido. Regras de um bom convívio.

 

Se lá a vizinha não pode ligar o meteoro do Luan Santana, você descobre que ela tem uma garganta superpotente para gritar com a filha de 4 anos. E a filha de 4 anos como reage? Mostra que herdou a garganta da mãe.

 

Chega a noite, a criança já está dormindo. Agora você fica sabendo que o vizinho de cima é fanático por futebol e desconhece o botão do controle remoto que abaixa o volume.

 

Mas o jogo acaba e você finalmente vai dormir. O problema é que este mesmo vizinho acorda às 4 da madrugada. Ou deveria. Porque, pelo que você notou, o despertador acordou o prédio inteiro, menos o próprio dono. E quando já são 5 da manhã e você já ouviu a música do despertador inteirinha por 5 vezes, o vizinho levanta.

 

Quando você acha que vai dormir mais um pouquinho, você descobre que não é vizinho, é vizinha. E usa salto. E anda muito pelo apartamento.

 

Bem, agora a garota de 4 anos já acordou. Ela e a mãe disputam quem faz mais decibéis.

 

Já é hora de ir ao trabalho. E você só verá seus vizinhos depois do expediente. 

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E se a crase fosse assassinada?

Muitos seriam os suspeitos. Afinal, quantos redatores, escritores, revisores, jornalistas, estudantes já quiseram dar um fim à crase? (E a teimosa aparece até quando eu falo do seu assassinato).

 

A língua portuguesa, dentro de sua concepção, sempre afirmou ser a crase indispensável. “Como poderia ser bem executada a escrita sem a existência do acento grave? Impossível!” diz com ênfase.

 

Há tempos atrás ela também afirmava que seria impossível viver sem o trema. Porém chegou uma tal reforma, de mansinho, e fez a língua portuguesa calar-se. Até 2012 estará extinta a trema. Uma morte que se faz lentamente. Poderia ser de uma vez só, mas a dor será estendida por 4 anos.

 

Mas estamos aqui para discutir sobre um possível assassinato da crase. Será que teria tamanha audiência quanto às novelas de Silvio de Abreu? Ou a falta de sotaque italiano não traria tanta atenção a nossa língua portuguesa?

 

Neste caso, pouco importa. A crase é muito bem vigiada. Nenhuma reforma conseguiria matá-la, sequer chegaria perto. Ela continuará onde está, ou onde deveria. Já que, bem, como sabemos, nem sempre ela aparece onde deveria.

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