Simplesmente escrever

 

Escrever um bom texto muitas vezes se assemelha a um parto. Você não conseguirá ver seu lindo texto antes de passar por um bocado de sofrimento e muito suor. E fará tudo isso com muito gosto e felicidade.

Uma hora, enfim, ele nasce, brota, surge. Então você vê sua obra ali diante dos seus olhos, brilhando e sorrindo. Sabe que é hora de entregá-lo ao seu destino.

Você o trata com amor, carinho, zelo. Até que, de repente, vê que ele está pronto para fazer aquilo que lhe foi destinado, razão pela qual você o colocou no mundo: cumprir o objetivo do job. Ah, tadinho, por quantas provações ainda terá que passar.

A primeira delas: o diretor de criação. Mas que fique claro, existem diretores de criação E diretores de criação. Tem aqueles, os que realmente entendem de criação, que cuidam do seu texto como se tivesse sido concebido por ele, o deixam até mais bonito. Mas também têm aqueles que pedem 15 alterações, uma com menos sentido do que a outra. Depois ainda te chamam para uma conversa de horas explicando como você deveria ter feito o texto, porque você deveria pirar e tantas outras ladainhas.

Enfim, se seu filho, digo, texto, passou por essa provação (porque isso é bem mais que aprovação), é hora de encaminhá-lo ao atendimento.

Preste atenção no olhar dele, em seus gestos e defenda seu texto com todos os argumentos possíveis.

Provado que seu texto está completamente de acordo com a solução necessária, chega a hora mais difícil: enviá-lo para aprovação do cliente.

De lá ele pode voltar com sérias mutações. Mutações que o deixarão irreconhecível e você renegará sua própria criação. Jamais admitirá que aquilo saiu de você.

Por outro lado, ele pode sobreviver e voltar lindo e saudável. Então você joga seu texto no mundo com muito orgulho: “vai meu filho, vai fazer seu papel na sociedade, vai mostrar ao que veio”.

E reinicia a saga, com todos os jobs que aguardam ansiosamente para se tornarem textos.

 

 

 

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E se a crase fosse assassinada?

Muitos seriam os suspeitos. Afinal, quantos redatores, escritores, revisores, jornalistas, estudantes já quiseram dar um fim à crase? (E a teimosa aparece até quando eu falo do seu assassinato).

 

A língua portuguesa, dentro de sua concepção, sempre afirmou ser a crase indispensável. “Como poderia ser bem executada a escrita sem a existência do acento grave? Impossível!” diz com ênfase.

 

Há tempos atrás ela também afirmava que seria impossível viver sem o trema. Porém chegou uma tal reforma, de mansinho, e fez a língua portuguesa calar-se. Até 2012 estará extinta a trema. Uma morte que se faz lentamente. Poderia ser de uma vez só, mas a dor será estendida por 4 anos.

 

Mas estamos aqui para discutir sobre um possível assassinato da crase. Será que teria tamanha audiência quanto às novelas de Silvio de Abreu? Ou a falta de sotaque italiano não traria tanta atenção a nossa língua portuguesa?

 

Neste caso, pouco importa. A crase é muito bem vigiada. Nenhuma reforma conseguiria matá-la, sequer chegaria perto. Ela continuará onde está, ou onde deveria. Já que, bem, como sabemos, nem sempre ela aparece onde deveria.

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